Um homem comum caminhava pela rua pensando em algo. Ele estava sozinho no mundo, aflito, sem amigos, sem namoradas, sem garotas, não sentia motivo para se preocupar com ninguém, seguia seus passos, sua intuição, seu caminho, suas vontades e desejos. O homem estava inquieto, não parava de pensar no pior, a angustia arrancava sua pele, seus pensamentos feriam sua carne como as chagas de cristo, ele estava farto de carregar sua cruz, estava exausto de carregar o peso do mundo na suas costas, sentia culpa, sentia dor, sentia raiva, sentia desprezo por todos, nada fazia sentido. Ele não queria mais jogar, não sentia vontade de fazer nada, queria apenas ficar deitado no seu leito fumando cigarros, tomando café, ele escrevia poemas para os mortos, acreditava mais neles, não queria sair de casa para ver o sol, preferia ficar na cama pensando no futuro que não existia. O homem decidiu seu próprio destino, resolveu fazer sua escolha. Certa madrugada ele saiu de casa era tarde, as estrelas brilhavam no céu, o ar carregado prometia forte tempestade. O homem atravessou a cidade, encontrou com um boliviano que vendia pó num bar escondido, comprou dois papelotes de cocaína, voltou para a casa, ele vestiu sua roupa preta, estava de luto ao mundo, tudo simbolizava um grande enterro. Ele passou no bar da esquina, entrou no banheiro, despejou as duas cápsulas na pedra de mármore em cima do vaso, trancou a porta, começou com uma enorme carreira, sua face desfigurava no espelho rachado, abriu a porta, lavou as mãos, o rosto, sentou-se, chamou o garçom, pediu dois copos de conhaque para aquecer seu coração de pedra que disparou na mesma hora, sua mão tremia, voltou ao banheiro, tinha escondido a cocaína, mandou ver mais um tiro menor, saiu e pediu uma cerveja. Ele estava decidido, não sentia pena, não sentia remorso. Ele caminhou por cerca de dois quilômetros, talvez fosse seu ultimo contato com as ruas, observou do outro lado uma linda garota que passava com seu namorado, pensou que poderia ser o namorado por algum instante, não havia tempo, observou uma criança que brincava com a mãe, lembrou da sua maldita infância, ele nunca comentava sobre sua família e o que eles faziam, caminhou mais um pedaço, de longe ele avistava a ponte que tinha uns oitenta metros de altura, ela ficava afastada dos grandes centros, passava por cima de uma represa. Através da escada de emergência ele subiu até o topo, estava próximo do céu, sentou sobre o ultimo degrau, o vento esfolava sua faze no vazio, arrasado ele não entendia porque tudo sempre dava errado, ele não sentia medo, não tinha mais fé em nada, fechou seus olhos, sua vida passou feito um filme, sem hesitar o homem mergulhou de cabeça no vazio. Depois de alguns minutos encontram o corpo espatifado pelo chão, as pessoas diziam entre si que havia sangue para todos os lados, que tinha sito um barulho estranho. O homem sobreviveu à queda, o resgate chegou a tempo, levaram o corpo de ambulância, talvez um milagre tivesse acontecido, algo que ninguém pudesse explicar. Passaram-se seis meses o homem se recuperava deitado na maca do hospital público, estava paraplégico, mexia apenas os olhos, uma velha da igreja com pena, cuidava e limpava a merda do homem, ele continuava deitado em seu leito, continuava a ler, ditava para enfermeira escrever seus poemas imbecis.
Medeiros A.